Era uma vez...

E como encontraram
Tal qual encontrei
Assim me contaram
Assim vos contei...

15 de setembro de 2009

Criatividade...



"Quando as mulheres ainda não tinham potes para cozinhar, houve uma moça
que se lamentou porque não tinha onde preparar a chicha. A mãe ficou com pena dela e avisou: “ Vou virar barro para você poder fazer um pote. Você me  emborca decabeça para baixo e minha xoxota vai ser o gargalo do pote. Você me lava bem por dentro, depois me põe no fogo para cozinhar a chicha. Quando a água secar, filhinha, eu aviso e você põe mais água para o meu coração não queimar.”
A moça obedeceu direitinho e durante muitos dias ficou usando a mãe-pote para
cozinhar a chicha. Quando terminava, punha-a no jirau para esfriar, lavava bem a panela e a mãe virava gente de novo. O marido desta moça, adorava a chicha que era preparada escondido dele. Acontece que ele tinha um xodó, uma namorada ciumenta, que foi espiar a mãe e a filha para descobrir como faziam a chicha mais gostosa da aldeia. Despeitada, ela correu com a denúncia: “ Você gosta mais da chicha da tua mulher do que da minha, mas ela cozinha tua comida dentro da xoxota da tua sogra!”
O rapaz, enfurecido, foi tirar satisfação com a mulher. Encontrou-a fazendo a
chicha e com raiva chutou a panela-sogra que estava no fogo. O pote quebrou-se. A filha tentou juntar os cacos desesperada, quis colar, a mãe gemendo de dor. “ Minha filha, teu marido me esmigalhou, não posso mais morar aqui. Vou embora para ondehá barro, para continuar a fazer potes para você”.
A moça não se consolava com a falta da mãe, que vez por outra voltava a ser
gente para conversar e orientá-la. Um dia, a mãe tornou-se toda de barro. A moça entrou no lamaçal e foi retirando potes, panelas belíssimas, vasos, tudo prontinho.
Escondeu no mato e foi usando um por um. As mulheres da aldeia descobriram e foram pedir também. A mãe dava, mas nunca eram peças tão bonitas como aquelas que ela oferecia à filha. Depois de dar tanta cerâmica, a mãe foi para bem longe. No barreiro só restou um barro sujo, que as outras mulheres usariam para fabricar suas próprias panelas. Quanto à filha, aos poucos ia trazendo do mato as magníficas peças, presentes de sua mãe que as outras invejariam."
No mito Tucuna o amor entre mãe e filha tem poder para gerar as mais belas cerâmicas. Mas a filha deve passar pela prova da coragem para desfrutar dos presentes de sua mãe. A inveja das outras mulheres, assim como o despeito da amante do marido e a raiva dele são reações explosivas que ela deve aprender
a contornar. No fundo, é o seu próprio fogo emocional que ela vai dominando para que sua arte tenha sucesso. Quem possui o segredo do uso do fogo emocional desperta a inveja e o ciúme das outras oleiras, que não conseguem fazer potes sem quebrá-los durante a queima. A quebra das peças representa uma alegoria da explosividade emocional que elas não conseguem evitar.
A forma receptiva do órgão feminino permite comparações com o vaso alquímico, que vai aquecer no fogo da transmutação interior. Canal vaginal, útero e trompas são órgãos que corporificam a imagem arquetípica da receptividade.
Ser continente é um dos atributos do princípio de Eros que tem sido algumas
vezes mal interpretado por apressadas que vêem na receptividade a negação da atividade feminina. Mas ser continente não quer dizer ser amorfo, sem cheiro nem sabor, sobretudo sem calor. Ao contrário, o vaso alquímico e sua fonte
de calor são uma e a mesma unidade subtende-se na imagem dos órgãos da
mulher. “ O conjunto de órgãos constituídos pela vagina, útero e trompas é um
vaso perfeito, um autêntico recipiente, predestinado a recolher a substância
fecundante e a fazê-la amadurecer, em união com a própria substância feminina”
(Penna,1989 p.189) O que não transparece no mito do Gênesis, está palpitante na tradição indígena que mostra a intensidade da energia psíquica fluindo através das sensações e dos sentimentos durante- o processo de criação.
A ARTE EMOCIONAL DAS CERAMISTAS - LUCY PENNA
Publicado em Junguiana, v.23 Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica p. 78-86, 2005

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Namastê























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