Era uma vez...

E como encontraram
Tal qual encontrei
Assim me contaram
Assim vos contei...

31 de dezembro de 2009

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - Comte-Sponville

                                          

"A definição que acabo de propor deve muito a uma outra, que é de Spinoza. Eila:

“O amor é uma alegria que a idéia de uma causa externa acompanha.” Amar é regozijar-se ou, mais exatamente (pois o amor supõe a idéia de uma causa),regozijar-se com. Regozijar-se ou gozar, dizia eu; mas o prazer só é um amor, no sentido mais forte do termo, se regozija a alma, o que acontece especialmente nas
relações interpessoais. A carne é triste quando não há amor ou quando só se ama a carne. Isso dá razão a Spinoza: o amor é essa alegria que se soma ao prazer, que o ilumina, que o reflete como no espelho da alma, que o anuncia, o acompanha ou o segue, como uma promessa ou um eco de felicidade. Será esse o sentido
comum da palavra? Parece-me que sim, ou pelo menos que isso a reforça numa parte essencial, que é sua melhor parte. Se alguém lhe disser: “Fico feliz com a idéia de que você existe”; ou então: “Quando penso que você existe, fico feliz”; ou ainda: “Há uma felicidade em mim, e a causa da minha felicidade é a idéia de
que você existe…”, você tomará isso por uma declaração de amor, e terá razão, é claro. Mas terá também muita sorte: não apenas porque uma declaração spinozista de amor não é para qualquer um, mas também e principalmente porque é uma declaração de amor, ó surpresa, que não lhe pede nada!"
( Pintura de Marc Chagall - 1931 )

30 de dezembro de 2009

Serra do Rola Moça


"A serra do Rola Moça não tinha esse nome não"


Esta é a estória de um moço e uma moça que atravessaram a serra para casar no arraial do outro lado.
A serra é cheia de caminhos tortos, atalhos perigosos, passagens estreitas e faz do viajorno um ir e vir cheio de vigilância. Lá embaixo, os socavões.


Antes que a noite chegasse resolveram voltar. Tomaram rumo de casa, agora casados e cheios de alegria. Durou pouco. Sucedeu, enquanto encantados e rindo à toa, o descuido da moça. O casco do cavalo pisou em falso e foram moça e cavalo serra abaixo. Sem acreditar no que acontecia, o moço desesperado tocou seu cavalo à galope no meio do nada. Saltou o abismo atrás da noiva e a serra do Rola Moça assim chamou. A moça morreu de acidente, o moço de amor.

Deixa rolá o teu corpo morena
Roliça serra, geografia sensuá
Moça morena do brumado
Senhora duma serra ao meu lado
Judiação
Essa é a estória de uma amor rolado
Rola na serra no capim melado
A dor de dois nubentes
Recém casados e displicentes
Jurando amor

Fim...

29 de dezembro de 2009



"... é a grande e interminável conversa das mulheres,
que parece coisa nenhuma, isto é o que pensam os homens,
nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo em sua órbita,
se não fosse este falar das mulheres umas com as outras,
 os homens já teriam perdido o sentido da casa e do planeta..."




( Trecho de José Saramago; Pintura de Sabzi )

28 de dezembro de 2009

Irvin Yalom - O carrasco do amor


"Descobri que quatro dados são particularmente relevantes para a psicoterapia:
a inevitabilidade da morte para cada um de nós e para aqueles que amamos,
a liberdade de viver como desejamos,
nossa condição fundamental de solidão e, finalmente,
a ausência de qualquer significado ou sentido óbvio para a vida.
Embora esses dados possam parecer terríveis, eles contêm as sementes da sabedoria e da redenção."

23 de dezembro de 2009




"Intimidade é quando a vida da gente relaxa diante de outra vida e respira macio. Não há porque se defender de coisa alguma nem porque se esforçar para o que quer que seja. O coração pode espalhar os seus brinquedos. Cantar a música que cada instante compõe. Bordar cada encontro com as linhas do seu próprio novelo. Contar as paisagens que vê enquanto cria o caminho. Andar descalço, sem medo de ferir os pés. "


(Ana Jácomo)

15 de dezembro de 2009

Ilusões - Richard Bach



E lhes disse: “Dentro de nós está o poder de nosso consentimento para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos isso, e não os outros.”
Um moleiro disse: “Essas palavras são fáceis em tua boca, Mestre, pois és guiado como não somos nós, e não precisas trabalhar como trabalhamos. O homem tem de trabalhar para ganhar a vida neste mundo.”
O Mestre respondeu: “Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino.
“A corrente do rio passava silenciosamente por cima de todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo o seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino. “Cada criatura, a seu modo, se agarrava fortemente às plantas e pedras do leito do rio, pois agarrar-se era o seu modo de vida, e resistir à corrente era o que cada um tinha aprendido desde que nascera.
“Mas uma das criaturas disse, por fim: ‘Estou farto de me agarrar.
Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio.’
“As outras criaturas riram-se e disseram: ‘Louco! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será mais rápida do que a causada pelo tédio!’
Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras!
“Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais.
“E as criaturas mais abaixo no rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: ‘Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa!
Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar!’
“E aquele que foi carregado pela corrente disse: ‘Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousarmos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura.’
“No entanto, cada vez exclamavam mais ‘Salvador!’, enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e eles ficaram sozinhos, inventando lendas sobre um Salvador.”

2 de dezembro de 2009

...isso segundo Adélia Prado





" Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou."



27 de novembro de 2009

Oração Lakota


WaKan Tanka,Grande Mistério.

Ensina-me a confiar
Em meu coração,
Em minha mente
Em minha intuição,
Em minha sabedoria interna,
nos sentidos do meu corpo.
Nas bençãos do meu espírito
Ensina-me a confiar nestas coisas
Para que eu possa entrar em meu espaço sagrado
E amar além do meu medo.
E assim caminhar em beleza
Com a passagem de cada sol glorioso.


De acordo com o povo Lakota o espaço sagrado,é o inervalo entre a exalação e a inspiração.
Caminhar em beleza é ter o céu (espiritualidade) e a terra (físico) em harmonia.









Tudo o que dorme é criança de novo.
Talvez porque no sono não se possa fazer mal,
e se não dá conta da vida, o maior criminoso,
o mais fechado egoísta é sagrado,
por uma magia natural, enquanto dorme.
Entre matar quem dorme e matar uma criança não
conheço diferença que se sinta.



Fernando Pessoa

17 de novembro de 2009


Durante a era glacial muitos animais morriam por causa do frio.

Os porcos-espinho, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.
Por causa disso, decidiram se afastar uns dos outros e voltaram a morrer congelados.
Então, precisavam fazer uma escolha: desaparecer da face da Terra ou aceitar os espinhos dos companheiros. Com sabedoria, decidiram ficar juntos para se agasalharem e sobreviver.
Aprenderam a conviver com as feridas que a relação com outras pessoas podem causar, e que o mais importante é aceitar o que o outro '"pode" oferecer.
Portanto, precisamos entender que o melhor relacionamento, não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro e consegue admirar suas qualidades.
(Texto: desconheço o autor)

15 de novembro de 2009


"Não sei nada sobre estrelas – disse o velho.

- Vou te contar um segredo: quando está preste a amanhecer, é possível pega-las.
Você imagina o que pode ser feito com isso?

- Não. Por que alguém gostaria de pegar as estrelas?

- Oras, para coleciona-las. Fazer o nosso próprio céu.

- Por que querer o ‘nosso próprio céu’?

O homem riu:
- Porque em alguns lugares já não é mais possível ver o céu.
Para um viajante, você não parece ter visto muita coisa.
Queremos nosso próprio céu porque tememos um dia perde-lo."

13 de novembro de 2009



'Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.'
( Hilda Hilst)

12 de novembro de 2009

Revista faz ensaio com mulheres 'fora dos padrões'



A revista americana ' Glamour' desfiou os padrões de beleza das passarelas com ensaio ousado de sete mulheres cujos pesos e medidas estão bem acima das famosas modelos.
A ideia partiu do retorno de inúmeros leitores que enviaram cartas elogiando uma certa modelo,com quilinhos a mais, que havia saído em uma pequena foto na página 194 da edição de setembro da revista.
Mensagens positivas como "Em nome de todos os homens: Você é magnífica!" e " Queremos mais!" incentivaram o editor a reservar um espaço maior para as modelos mais fortinhas.
O ensaio, à pedido dos leitores, estará na edição de novembro da publicação americana

10 de novembro de 2009

Henry Miller,em um trecho do livro "O Colosso de Marússia"



"É a manhã do primeiro dia da grande paz, a paz do coração, que vem com a rendição. Nunca soube o significado da paz até chegar a Epidauro. Como todo mundo, eu usara a palavra toda a vida, sem me dar conta por uma vez que fosse, de que é uma falsificação. Paz não é o oposto de guerra, da mesma forma que a morte não é o oposto da vida. A pobreza da linguagem, isto é, a pobreza da imaginação do homem ou de sua vida interior criou uma ambivalência que é absolutamente falsa. Estou falando, é claro, da paz que ultrapassou a compreensão. Não há outra paz. A paz que a maioria de nós conhece é apenas o cessar de hostilidades, um acordo, um interregno, uma pausa - que é negativa. a paz do coração é positiva e invencível, não impõe condições, não requer proteção. É. Só. Se é vitória, é uma vitória muito especial, porque se baseia inteiramente na rendição, mais especificamente, na rendição voluntária. Não há mistério, para mim, em relação à natureza das curas que efetuavam nesse grande centro terapêutico do mundo antigo. Aqui o próprio curandeiro se curava, primeiro e mais importante passo no desenvolvimento de uma arte que não é médica, mas religiosa. Segundo, o paciente se curava antes mesmo de receber qualquer tratamento. Os grandes médicos sempre falaram da Natureza como sendo a grande curandeira. Isso só é parcialmente verdadeiro. A Natureza, sozinha, não pode fazer nada. Ela só pode curar quando o homem reconhece o seu lugar no mundo, que não é na Natureza, como é com o animal, mas no reino humano, que é a ligação entre o animal e o divino.

8 de novembro de 2009

Mulheres que correm com os lobos - Clarissa pinkola Estés

"A sociedade tenta mas não pode domesticá-la, ela se esquiva das regras. Quando você pensa que capturou, escapole feito água entre os dedos. Quando pensa que finalmente a conhece, ela surpreende outra vez. Tem a alma livre e só se submete quando quer. Por isso escolhe seus parceiros entre os que cultuam a liberdade. E como os reconhece? Como toda loba, pelo cheiro, por isso é bom não abusar de perfumes. Seu movimento tem graça, o olhar destila uma sensualidade natural... mas, cuidado, não vá passando a mão. Ela é um bicho, não esqueça. Gosta de afago mas também arranha. "
(A MULHER SELVAGEM, trecho)

6 de novembro de 2009

Gabriel Garcia Marquez....



"... Ela sentiu lá dentro o fragor da tempestade.
– Estou sempre assim – disse ele.
E sem lhe dar tempo ao pânico, libertou-se da matéria turva que o impedia de viver. Confesou que não passava um instante sem pensar nela, que tudo o que bebia e comia tinha gosto dela, que a vida era ela a toda hora e em toda parte, como só Deus tinha o direito e o poder de ser, e que o gozo supremo de seu coração seria morerr com ela. Continuou falando sem a fitar, com a mesma fluidez e o mesmo calor com que recitava, até que teve a impressão que Sierva María tinha dormido. Mas ela estava atenta, fixos nele os seus olhos de corça assustada. Apenas se atreveu a perguntar:
– E agora?
– Agora nada – disse ele. – basta que saibas."

(Trecho de "Do amor e outros demônios.")


Gabriel Garcia Marquez é um encanto...

4 de novembro de 2009


Solidão

Quem pode evitar
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e desagua
Dentro de mim
Amanhã devagar
Me diz
Como voltar
Se eu disser
Que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser
Deixa pra depois
Não foi sempre assim
Tentei dizer...
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar...
...

1 de novembro de 2009

Trechos de uma entrevista onde Leonardo Boff fala da mãe"


 "Com a minha mãe não havia maneira, inventei mil formas, numa viagem que fiz ao Vaticano consegui que o papa benzesse um caderno e uma caneta de um confrade que trabalhava na Secretaria de Estado, para a minha mãe, e disse a ela: "Isto aqui é bento pelo papa, esta caneta, este caderno, a senhora aprende...". E ela: "O papa não vale nada, é um bobalhão, eu não quero saber de aprender."

 "Gravei tópicos de vários livros meus para ela escutar, ela escutou e disse: "Puxa, mas que interessante, eu não te ensinei isso, como você sabe essas coisas se eu não te ensinei?" Uma vez cheguei em casa e ela me perguntou: "Você, que é padre" – ela não dizia teólogo, dizia "tiólogo" –, você já viu Deus?" Eu digo: "Mãe, a gente não vê Deus". Ela: "Mas como, você, tantos anos padre, não viu Deus? Isso é uma vergonha para o padre!" Eu digo: "Mãe, a senhora vê?" E ela: "Lógico que eu vejo Deus. De vez em quando tem o pôr-do-sol, aquelas nuvens, fico olhando e ele passa com aquele manto, sorrindo, e atrás vem teu pai que já morreu, sempre olhando pra mim e rindo, e eu fico uma semana inteira com alegria no coração." E me olhava com tristeza infinita: "Como é possível que os padres não vêem Deus?" Quem é teólogo é ela! (risos)"


Entrevistadores: Marina Amaral, Frei Betto, Sérgio Pinto de Almeida, Ricardo Kotscho, Roberto Freire, Carlos Moraes, Chico Vasconcellos, João Noro, Sérgio de Souza.

30 de outubro de 2009

Samsara


- O que é samsara? perguntou o rei.
- Nós nascemos aqui e morremos, nós nascemos lá e morremos, e
depois nascemos de novo e morremos de novo: isso é samsara -
respondeu Nagasena, o bodisatva.
- Não entendi - disse o rei.
- Quando você come uma manga, ó grande rei, você separa o
caroço. O caroço é plantado e nasce outra mangueira, que dá frutos.
Aí as pessoas comem os frutos, jogam fora os caroços, que são
plantados e tornam-se mangueiras, com o tempo. Como se vê, a
mangueira não tem fim. É por isso que nascemos aqui, ali morremos
e nascemos novamente e vamos morrendo, igual ao caroço de
manga. Isso é samsara.
- E o que renasce no mundo depois? - indagou o rei.
- Nasce outro nome, outro corpo, outro espírito. Não é o mesmo
caroço de manga.

"Através da vida que levávamos, aprendi o dom, a lição mais árdua de se aceitar, e a mais poderosa que conheço — ou seja, o conhecimento, uma certeza absoluta de que a vida se repete, se renova, não importa quantas vezes seja apunhalada, descarnada, atirada ao chão, ferida, ridicularizada, ignorada, desprezada, desdenhada, torturada ou tornada indefesa. Com minha gente querida, aprendi tanto sobre o túmulo, sobre encarar os demônios e sobre o renascimento quanto aprendi em toda a minha formação psicanalítica e meus vinte e cinco anos de atendimento clínico. Sei que aqueles que sob certos aspectos e por algum tempo estão afastados da crença na própria vida acabam sendo os que perceberão que o Éden está por baixo do campo nu, que as sementes novas vão primeiro para os lugares abertos e vazios — mesmo quando esse local é um coração de luto, uma mente torturada ou um espírito devastado.

Qual é esse processo do espírito e da semente, cheio de fé, que toca o solo nu e o torna rico de novo? Não tenho a resposta completa. Só sei o seguinte: (...) Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé, aquilo que pareceu morto não estará morto, aquilo que pareceu perdido também não estará mais perdido, aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, e a terra que está sem cultivo está apenas descansando — à espera de que a semente venturosa chegue com o vento, com todas as bênçãos de Deus. E ela chegará." C.P.Éstes

27 de outubro de 2009

CÂMARA ESCURA

,

Devagar,
Hora a hora
Dia a dia,
Como se o tempo fosse um banho de acidez,
Vou vendo com mais funda nitidez
O negativo da fotografia.
E o que eu sou por detrás do que pareço!
Que seguida traição desde o começo,
Em cada gesto,
Em cada grito,
Em cada verso!
Sincero sempre, mas obstinado
Numa sinceridade
Que vende ao mesmo preço
O direito e o avesso
Da verdade.
Dois homens num só rosto!
Uma espécie de Jano sobreposto,
Inocente,
Impotente,
E condenado
A este assombro de se ver forrado
Dum pano de negrura que desmente
A nua claridade do outro lado.
( Poesia :Torga, Gravura : Marco kostabi)



26 de outubro de 2009

Sting - contando sobre ´sua experiência numa Cerimônia da Ayahuasca


"Sou obrigado a me sentar nos degraus da igreja num estado de admiração emudecida diante da beleza da floresta e das estrelas acima de minha cabeça, mas é mais do que posso suportar.
Baixo os olhos para fitar uma pequena cavidade nos degraus de pedra e ali, em meio à escuridão, a quinze centímetros de mim, no fundo da estreita fenda formada pelas grosseiras lajes de granito, cresce
uma belíssima flor roxa. É uma não-te-esqueças, cinco pétalas púrpuras irradiando da mandala central de uma estrela amarela de cinco pontas, esticando-se bravamente na direção da luz com uma força vital extraordinária, e sou a única testemunha da coragem de sua luta. Nesse momento sou levado a compreender que não só seres vivos minúsculos, belos e delicados como esses devem estar energizados de amor, como também as rochas inanimadas que os cercam, tudo que dá e que recebe, reflete e absorve, resiste
e se entrega, e me dou conta, talvez pela primeira vez, que o amor nunca é desperdiçado. O amor pode ser negado ou ignorado, ou até deturpado, mas ele não desaparece: apenas troca de forma, até
que estejamos conscientemente prontos a aceitar seu mistério e poder. Isso pode levar um momento ou uma eternidade, e não há insignificâncias na eternidade. E se isso é verdade, então devo continuar a rememorar minha história e tentar extrair algum significado dela, tentar recontar a insípida prosa de minha vida como
se fosse uma espécie de poesia transcendental."

23 de outubro de 2009


“Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar.As perguntas são como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira.Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las.E a questão é viver tudo.Viva as perguntas agora.Talvez assim, você, gradualmente,sem perceber,viverá a resposta num dia distante"
(Rilke)


21 de outubro de 2009


"NADA LHE POSSO DAR QUE JÁ NÃO EXISTA EM VOCÊ MESMO.

NÃO POSSO ABRIR-LHE OUTRO MUNDO DE IMAGENS, ALÉM DAQUELE QUE HÁ EM SUA PRÓPRIA ALMA.
NADA LHE POSSO DAR A NÃO SER A OPORTUNIDADE, O IMPULSO, A CHAVE.
EU O AJUDAREI A TORNAR VISÍVEL O SEU PRÓPRIO MUNDO,  E ISSO É TUDO. "
(HERMANN HESSE)

Nárnia



"Aqui não tem nada! - disse Pedro, e saíram todos da sala.

Todos menos Lúcia. Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou assim muito admirada ao ver que se abriu facilmente, deixando cair duas bolinhas de naftalina.
Lá dentro viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto. Não fechou a porta, naturalmente: sabia muito bem que seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa. Foi avançando cada vez mais e descobriu que havia uma segunda fila de casacos pendurada atrás da primeira. Ali já estava meio escuro, e ela estendia os braços, para não bater com a cara no fundo do móvel. Deu mais uns passos, esperando sempre tocar no fundo com as pontas dos dedos. Mas nada encontrava.
“Deve ser um guarda-roupa colossal!”, pensou Lúcia, avançando ainda mais. De repente notou que estava pisando qualquer coisa que se desfazia debaixo de seus pés. Seriam outras bolinhas de naftalina? Abaixou-se para examinar com as mãos. Em vez de achar o fundo liso e duro do guarda-roupa, encontrou uma coisa macia e fria, que se esfarelava nos dedos. “É muito estranho”, pensou, e deu mais um ou dois passos.
O que agora lhe roçava o rosto e as mãos não eram mais as peles macias, mas algo duro, áspero e que espetava.
- Ora essa! Parecem ramos de árvores!"

Este é o trecho do livro Crônicas de Nárnia, onde Lúcia, uma garotinha cheia de luz encontra no guarda-roupa a passagem para Nàrnia...Eu sempre acreditei que este era a grande moral desta estória...Acreditar que existem mundos encantados dentro de guarda-roupas...Acreditar que o mundo pode ser um lugar bom para se viver, que os seres humanos podem ser boas criaturas de se conviver, acreditar que podemos ser mais leves, mais conscientes, mais amorosos...
Correr o risco de sonhar com a felicidade individual e coletiva...Entendendo que este não é um estado congelado, mas sim dinâmico, vivo, intenso, pleno de confiança...

(gi)

19 de outubro de 2009

Escudo do Sul


Espírito Guardião do Sul, é representado pelo Coiote, este professor selvagem e ardiloso do Reino Animal (Sun Bear).



Existe todo um bloco da mitologia nativa que lida com o Coiote, o velho trapaceiro que, às vezes, é Criador e outras vezes, o "Palhaço Sagrado". O Coiote é um dos mais sagrados e mais profanos dos animais. Tal como o pato Lonn ( totem da Vovó Lua) e o Sapo (Clã dos Sapos), ele é um cantor poderoso, cuja canção pode levar os humanos à liberdade ou ao medo. Coiote traz crescimento a qualquer um, mas para aqueles que amam a vida, ele dá o presente da "confiança ". É a confiança na vida que nos ensina a verdadeira sobrevivência e tolerância.


O coiote pode ser encontrado em muitas areas rurais da América do Norte. Menor do que um lobo, o coiote se provou adaptável à invasão da civilização. Os mais distintos atributos do coiote são sua ligeireza, sentidos aguçados, traços de cachorro e sua canção. Em muitas noites no campo, os ganidos e uivos do coiote varam a noite calma, lembrando a todos os Duas Pernas que podem ouvi-los, que embora agora, predominem na terra, não são a única espécie existente.


Aprendemos muito sobre as pessoas de acordo com a forma como elas reagem ao Coiote. Aqueles que amam a vida e a terra, são inspirados pela canção do Coiote e sua habilidades em driblar a civilização, que tem tentado destruí-lo. Aqueles que temem tudo o que é natural, também temem o coiote e tentam destruí-lo atirando nele, pondo veneno ou armadilhas. Os medrosos descrevem o coiote como um ladrão, aquele que come as criações domésticas, como a galinha. O coiote prefere alimento natural, animal roedores como ratos ou coelhos, mas ele se alimentará, ocasionalmente, de uma galinha ou outro pequeno animal doméstico em áreas onde a civilização exterminou todas as suas presas naturais.


Quando ele trabalha com Shawnodese, a pele do Coiote tem a cor mosqueada do Sol do meio dia brilhando na Terra. Algumas vezes, quando a serviço de Shawnodese, a pele do Coiote é tão mosqueada que parece desaparecer. É aí que ele faz o seu mais poderoso trabalho. "


http://www.xamanismo.com.br/Roda/SubRoda1191072387009It003Ps001

Mâe Terra eu Te sinto sob os meus pés...Mãe Terra eu escuto Seu coração


Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia


Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria
Ninguém supõe a morena, dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema, mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba
Terra, terra,
Por mais distânte o errante navegante
Quem jamais te esqueceria
Eu estou apaixonado, por uma menina terra
Signo de elemneto terra, do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, terra,
Por mais distânte o errante navegante
Quem jamais te esqueceria
Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente,e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente e gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, terra,
Por mais distânte o errante navegante
Quem jamais te esqueceria
De onde nem tempo e nem espaço, que a força te de coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada,através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, terra,
Por mais distânte o errante navegante
Quem jamais te esqueceria
Na sacadas do sobrado, da eterna são salvador
Há lembranças de donzelas, do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria

15 de outubro de 2009

A Paz!



Invadiu o meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não
Me enterro mais...
A Paz!
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino
A Paz!
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão na paz...
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz...
Eu vim!
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"...
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz...
Eu vim!
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"...
A Paz!
Invadiu o meu coração!
A Paz!
Fez o mar da revolução!

13 de outubro de 2009

Matisse...(maravilhoso...)


"O esforço que é preciso para nos libertarmos das imagens fabricadas (através da fotografia, dos filmes e dos reclames), exige uma certa coragem e essa coragem é indispensável ao artista que deve ver tudo como se o estivesse a ver pela primeira vez. É preciso ser-se capaz de ver pela vida fora como quando em crianças víamos o mundo, pois a perda dessa capacidade de ver significa a perda de toda a expressão original"

Henri Matisse

12 de outubro de 2009

Soneto 18 - Shakespeare



"Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando estes versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto e ele te fará viver."

(Pintura de Leonid Afremov - Fauvismo)

9 de outubro de 2009

REGINA BRETT, 90 ANOS, DO JORNAL THE PLAIN DEALER, CLEVELAND, OHIO


Para comemorar o avanço da idade, anos atrás anotei 45 lições que a vida me ensinara. Foi a matéria mais solicitada que escrevi em toda a minha vida de colunista. Em agosto meu odômetro marcou 90, então vai aqui mais uma vez a receita:
1. A vida não é justa, mas não deixa de ser boa.
2. Quanto estiver em dúvida, só dê o primeiro pequeno passo.
3. A vida é muito curta para se perder tempo odiando alguém...
4. Seu emprego não vai cuidar de você quando ficar doente. Seus amigos e parentes é que vão fazer isto. Fique em contato.
5. Pague suas dívidas no cartão todos os meses.
6. Você não precisa sair ganhando em todas as discussões. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém junto. Cura mais do que sozinho.
8. Não tem problema ficar braba com Deus. Ele aguenta.
9. Poupe para a aposentadoria começando com o primeiro pagamento que recebe.
10. Chocolate? Inútil resistir.
11. Faça as pazes com o passado, para que não estrague o presente.
12. Não tem problema em deixar seus filhos verem você chorar.
13. Não compare sua vida com outras. Você não tem noção da jornada que elas são.
14. Se um relacionamento for secreto, melhor não tê-lo.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe, Deus nunca pisca.
16. Respire fundo, que esfria a cabeça.
17. Descarte tudo que não seja útil, lindo ou levante o astral.
18. O que não mata, realmente te deixa mais forte. [Em bom português: o que não mata, engorda.]
19. Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas a segunda depende só de você, de ninguém mais.
20. Quando o negócio é conseguir o que você ama na vida, não aceite "não" como resposta.
21. Acenda as velas, use o melhor lençol, use aquela lingerie de luxo. Não guarde para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se além do necessário. Depois, acompanhe o andar da carruagem.
23. Seja excêntrico agora mesmo. Não espere a velhice para usar extravagâncias.
24. O mais importante órgão sexual é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela sua felicidade, só você mesmo.
26. Debaixo de cada desastre coloque a seguinte legenda: 'Daqui a cinco anos isto ainda terá importância?'
27. Opte sempre pela vida.
28. Perdoe tudo a todos.
29. O que os outros pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.
31. Por melhor ou pior que seja a situação, ela vai mudar.
32. Não se leve a sério demais. Os outros também não o fazem.
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você pelo que ele é, não por qualquer coisa que você tenha feito ou deixado de fazer.
35. Não faça uma auditoria da sua vida. Apareça e dê o melhor de si agora mesmo.
36. Entre envelhecer e morrer jovem, a primeira opção dá de 10 a 0.
37. Seus filhos só têm uma infância.
38. Ao fim e ao cabo, o que realmente importa é que você amou.
39. Dê uma saída todos os dias. Há milagres esperando por toda a parte.
40. Se amontoássemos nossos problemas e víssemos as pilhas dos outros, faríamos questão de ficar com os nossos.
41. Inveja é perda de tempo. Você já tem tudo de que precisa.
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como está se sentindo – levante-se, ponha a roupa e compareça.
44. Ceda.
45. A vida não é uma flecha que, uma vez desfechada, sai voando sozinha, mas não deixa de ser uma dádiva


Não posso mais viver assim do seu ladinho
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar sozinha, numa ilha
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz

6 de outubro de 2009

Tinha que ser Jobim...


É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
Um pingo pingando, uma conta um conto
Um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
O projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
Um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
Um pingo pingando, uma conta um conto
Um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
O projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
Um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau é pedra

5 de outubro de 2009

E acreditamos que somos o centro do Universo....



"Imagine que os 4,5 bilhões de anos da Terra foram comprimidos em um só ano (entre parênteses colocamos a idade real de cada evento). Nesta escala de tempo, as rochas mais antigas que se conhece (~3,6 bilhões de anos) teriam surgido apenas em março. Os primeiros seres vivos (~3,4 bilhões de anos) apareceram nos mares em maio. As plantas e os animais terrestres surgiram no final de novembro (a menos de 400 milhões de anos). Os dinossauros dominaram os continentes e os mares nos meados de dezembro, mas desapareceram no dia 26 (de 190 a 65 milhões de anos), mais ou menos a mesma época em que as montanhas rochosas começaram a se elevar. Os humanóides apareceram em algum momento da noite de 31 de dezembro (a aproximadamente 11 milhões de anos). Roma governou o mundo durante 5 segundos, das 23h:59m:45s até 23h:59:50s. Colombo descobriu a América (1492) 3 segundos antes da meia noite, e a geologia nasceu com as escritos de James Hutton (1795), Pai da Geologia Moderna, há pouco mais que 1 segundo antes do final desse movimentado ano dos anos." (extraído de Eicher, 1968)"

30 de setembro de 2009

Que a violência não nos seja familiar!


Tipos de violência

Violência contra a mulher - é qualquer conduta - ação ou omissão - de discriminação, agressão ou coerção, ocasionada pelo simples fato de a vítima ser mulher e que cause dano, morte, constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral, psicológico, social, político ou econômico ou perda patrimonial. Essa violência pode acontecer tanto em espaços públicos como privados.

Violência de gênero - violência sofrida pelo fato de se ser mulher, sem distinção de raça, classe social, religião, idade ou qualquer outra condição, produto de um sistema social que subordina o sexo feminino.

Violência doméstica - quando ocorre em casa, no ambiente doméstico, ou em uma relação de familiaridade, afetividade ou coabitação.

Violência familiar - violência que acontece dentro da família, ou seja, nas relações entre os membros da comunidade familiar, formada por vínculos de parentesco natural (pai, mãe, filha etc.) ou civil (marido, sogra, padrasto ou outros), por afinidade (por exemplo, o primo ou tio do marido) ou afetividade (amigo ou amiga que more na mesma casa).

Violência física - ação ou omissão que coloque em risco ou cause dano à integridade física de uma pessoa.

Violência institucional - tipo de violência motivada por desigualdades (de gênero, étnico-raciais, econômicas etc.) predominantes em diferentes sociedades. Essas desigualdades se formalizam e institucionalizam nas diferentes organizações privadas e aparelhos estatais, como também nos diferentes grupos que constituem essas sociedades.

Violência intrafamiliar/violência doméstica - açontece dentro de casa ou unidade doméstica e geralmente é praticada por um membro da família que viva com a vítima. As agressões domésticas incluem: abuso físico, sexual e psicológico, a negligência e o abandono.

Violência moral - ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou a reputação da mulher.

Violência patrimonial - ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores.

Violência psicológica - ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal.

Violência sexual - acão que obriga uma pessoa a manter contato sexual, físico ou verbal, ou a participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação, coerção, chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule ou limite a vontade pessoal. Considera-se como violência sexual também o fato de o agressor obrigar a vítima a realizar alguns desses atos com terceiros.

Consta ainda do Código Penal Brasileiro: a violência sexual pode ser caracterizada de forma física, psicológica ou com ameaça, compreendendo o estupro, a tentativa de estupro, o atentado violento ao pudor e o ato obsceno.

( Portal da Violência Contra a Mulher)
( Gravura : Demetrius Gonçalves)

Violência contra a mulher...


   Alice Cooper
Only Women Bleed
  ( Tradução )
O homem tem sua mulher pra pegar sua semente.

Ele tem o poder - oh.
Ela tem a necessidade.
Ela passa sua vida tentando agradar seu homem.
Ela come seu jantar ou tudo o que puder.
Ela chora sozinha à noite, sem parar.
Ele fuma e bebe e não volta pra casa.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
O homem faz seu cabelo cinza.
Ele é o erro da sua vida.
Tudo o que você realmente procura é um fim.
Ele mente direto á você.
Você sabe que odeia esse jogo.
Ele te bate de vez em quando e você vive e ama a dor.
Ela chora sozinha à noite, sem parar.
Ele fuma e bebe e não volta pra casa.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Olhos negros todo o tempo.
Não gastam dinheiro.
Limpe esse encardido

E você abaixa em seus joelhos me pedindo
'Me veja sangrar'.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.
Só mulher sangra.

29 de setembro de 2009






“ para onde vão os trens, meu pai? para mahal, tami, paracamiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.



hilda hilst

26 de setembro de 2009


Um dia compreendeu como seus braços eram
Somente feitos de nuvens;
Impossível com nuvens abraçar até ao fundo
Um corpo, uma sorte.
A sorte é redonda e conta lentamente
As estrelas do estio.
Fazem falta uns braços seguros como o vento,
E como o mar um beijo.
Mas ele como seus lábios,
Como seus lábios não sabe senão dizer palavras;
Palavras até ao tecto,
Palavras até ao solo,
E seus braços são nuvens que transformam a vida
Em ar navegável.

Luis Cernuda

24 de setembro de 2009



"Nenhum homem é uma ilha isolada;
 cada homem é uma partícula do continente,
 uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,
como se fosse um promontório, como se fosse o solar de seus amigos ou o teu próprio;
a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não
perguntes por quem os sinos dobram;
 eles dobram por ti".
(John Donne)

23 de setembro de 2009


Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças nas janelas, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se põe. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - Aí de mim! Ai, ai de mim!
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom e um milhão de etcéteras!
(Caio Fernando Abreu)

SOBRE DIREITOS AUTORAIS

As fotos, figuras, textos, frases visualizadas neste blog, são de autorias diversas. Em alguns casos não foram atribuidos os créditos devidos por ignorância a respeito de sua procedência. Se alguém tiver
alguma objeção ou observação por favor contatar-me.
Namastê























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