Era uma vez...

E como encontraram
Tal qual encontrei
Assim me contaram
Assim vos contei...

31 de dezembro de 2009

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - Comte-Sponville

                                          

"A definição que acabo de propor deve muito a uma outra, que é de Spinoza. Eila:

“O amor é uma alegria que a idéia de uma causa externa acompanha.” Amar é regozijar-se ou, mais exatamente (pois o amor supõe a idéia de uma causa),regozijar-se com. Regozijar-se ou gozar, dizia eu; mas o prazer só é um amor, no sentido mais forte do termo, se regozija a alma, o que acontece especialmente nas
relações interpessoais. A carne é triste quando não há amor ou quando só se ama a carne. Isso dá razão a Spinoza: o amor é essa alegria que se soma ao prazer, que o ilumina, que o reflete como no espelho da alma, que o anuncia, o acompanha ou o segue, como uma promessa ou um eco de felicidade. Será esse o sentido
comum da palavra? Parece-me que sim, ou pelo menos que isso a reforça numa parte essencial, que é sua melhor parte. Se alguém lhe disser: “Fico feliz com a idéia de que você existe”; ou então: “Quando penso que você existe, fico feliz”; ou ainda: “Há uma felicidade em mim, e a causa da minha felicidade é a idéia de
que você existe…”, você tomará isso por uma declaração de amor, e terá razão, é claro. Mas terá também muita sorte: não apenas porque uma declaração spinozista de amor não é para qualquer um, mas também e principalmente porque é uma declaração de amor, ó surpresa, que não lhe pede nada!"
( Pintura de Marc Chagall - 1931 )

30 de dezembro de 2009

Serra do Rola Moça


"A serra do Rola Moça não tinha esse nome não"


Esta é a estória de um moço e uma moça que atravessaram a serra para casar no arraial do outro lado.
A serra é cheia de caminhos tortos, atalhos perigosos, passagens estreitas e faz do viajorno um ir e vir cheio de vigilância. Lá embaixo, os socavões.


Antes que a noite chegasse resolveram voltar. Tomaram rumo de casa, agora casados e cheios de alegria. Durou pouco. Sucedeu, enquanto encantados e rindo à toa, o descuido da moça. O casco do cavalo pisou em falso e foram moça e cavalo serra abaixo. Sem acreditar no que acontecia, o moço desesperado tocou seu cavalo à galope no meio do nada. Saltou o abismo atrás da noiva e a serra do Rola Moça assim chamou. A moça morreu de acidente, o moço de amor.

Deixa rolá o teu corpo morena
Roliça serra, geografia sensuá
Moça morena do brumado
Senhora duma serra ao meu lado
Judiação
Essa é a estória de uma amor rolado
Rola na serra no capim melado
A dor de dois nubentes
Recém casados e displicentes
Jurando amor

Fim...

29 de dezembro de 2009



"... é a grande e interminável conversa das mulheres,
que parece coisa nenhuma, isto é o que pensam os homens,
nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo em sua órbita,
se não fosse este falar das mulheres umas com as outras,
 os homens já teriam perdido o sentido da casa e do planeta..."




( Trecho de José Saramago; Pintura de Sabzi )

28 de dezembro de 2009

Irvin Yalom - O carrasco do amor


"Descobri que quatro dados são particularmente relevantes para a psicoterapia:
a inevitabilidade da morte para cada um de nós e para aqueles que amamos,
a liberdade de viver como desejamos,
nossa condição fundamental de solidão e, finalmente,
a ausência de qualquer significado ou sentido óbvio para a vida.
Embora esses dados possam parecer terríveis, eles contêm as sementes da sabedoria e da redenção."

23 de dezembro de 2009




"Intimidade é quando a vida da gente relaxa diante de outra vida e respira macio. Não há porque se defender de coisa alguma nem porque se esforçar para o que quer que seja. O coração pode espalhar os seus brinquedos. Cantar a música que cada instante compõe. Bordar cada encontro com as linhas do seu próprio novelo. Contar as paisagens que vê enquanto cria o caminho. Andar descalço, sem medo de ferir os pés. "


(Ana Jácomo)

15 de dezembro de 2009

Ilusões - Richard Bach



E lhes disse: “Dentro de nós está o poder de nosso consentimento para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos isso, e não os outros.”
Um moleiro disse: “Essas palavras são fáceis em tua boca, Mestre, pois és guiado como não somos nós, e não precisas trabalhar como trabalhamos. O homem tem de trabalhar para ganhar a vida neste mundo.”
O Mestre respondeu: “Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino.
“A corrente do rio passava silenciosamente por cima de todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo o seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino. “Cada criatura, a seu modo, se agarrava fortemente às plantas e pedras do leito do rio, pois agarrar-se era o seu modo de vida, e resistir à corrente era o que cada um tinha aprendido desde que nascera.
“Mas uma das criaturas disse, por fim: ‘Estou farto de me agarrar.
Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio.’
“As outras criaturas riram-se e disseram: ‘Louco! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será mais rápida do que a causada pelo tédio!’
Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras!
“Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais.
“E as criaturas mais abaixo no rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: ‘Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa!
Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar!’
“E aquele que foi carregado pela corrente disse: ‘Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousarmos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura.’
“No entanto, cada vez exclamavam mais ‘Salvador!’, enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e eles ficaram sozinhos, inventando lendas sobre um Salvador.”

2 de dezembro de 2009

...isso segundo Adélia Prado





" Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou."



SOBRE DIREITOS AUTORAIS

As fotos, figuras, textos, frases visualizadas neste blog, são de autorias diversas. Em alguns casos não foram atribuidos os créditos devidos por ignorância a respeito de sua procedência. Se alguém tiver
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Namastê























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