
Começo a fatigar-me da lassidão, sonho com um futuro longíquo e esqueço que a morte paralisante me apanhou. É prerrogativa do homem louco sonhar-se criatura fatal e pensar que rachou a história do mundo ao meio como pensei, em Ecce Homo, ter feito. Mas aniquilado fui eu e não o mundo, a natureza afugenta as idéias, mesmo as mais nobres, em benefício da simples existência animal: a vida é a sua meta, e todos os meus pensamentos são como palha fina ao vento do destino cósmico.Destituído do meu derradeiro véu da ilusão - o poder das idéias - contemplo o "vazio" com terror, mas assim mesmo me apego à vida, pois só viver me resta na destroçada paisagem do intelecto.Todo raciocínio é uma forma de decepção própria, mas em estado de euforia não consigo examinar-me e julgo possível encontrar a felicidade no reino da morte, totalmente dissolvido no Nirvana. Oh! estar vivo, vegetar estupidamente, mas assim mesmo estar vivo o calor do sol!Na ausência de todo o desejo ainda sobra o desejo de viver, mesmo que cada hausto seja agonia e a morte contenha a promessa de curar a dor. A morte está em nosso poder, mas não a vida; e como a vida nos repele agarramo-nos a ela num firme desespero, como a criança que empunha uma lâmina de aço. Agora luto pela vida com o mesmo pânico cego com que lutei nas entranhas da minha mãe, pois só pensar na existência me faz medo. Anseio, porém, por entrar na luz do dia.
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