Era uma vez...

E como encontraram
Tal qual encontrei
Assim me contaram
Assim vos contei...

6 de abril de 2008

A MULHER-ESQUELETO
Era uma vez uma moça, que tinha feito algo que seu pai não aprovou ( embora ninguém mais saiba dizer o que foi que ela fez ). Ele, cego de fúria, a arrastou pelos penhascos, puxando-a pelos cabelos; e do mais alto deles, jogou-a, observando o corpo de sua menina rolar nas pedras e cair com força no mar. E foi a última vez que se ouviu falar daquela moça, e a última vez que pronunciaram seu nome. Machucada e inerte, ela sentiu seu corpo misturando-se à agua do mar. Os peixes vieram comer sua carne e arrancaram seus dois olhos, pouco a pouco. Não demorou muito, e a moça era apenas mais um esqueleto que rolava com as correntes de um lado para o outro, no fundo das águas. Por um longo e sofrido período, ela ainda esperou que algo acontecesse algo que a fizesse submergir e enxergar o sol novamente. Mas não houve nada, e então ela cansou de esperar e dormiu profundamente, deixando-se levar pelas marés. E assim foi por muitos e muitos anos. De alguma forma, aquela enseada tornou-se sombria e amaldiçoada. A água tinha um cheiro estranho, o céu por ali era sempre nublado, e os animais da costa sumiram. Os peixes, que antes eram muitos, agora não estavam ali; os poucos que ficaram eram arredios e não se deixavam pegar nem mesmo pelo anzol mais cortante. De noite, ruídos estranhos podiam ser ouvidos. E frequentemente percebia-se que o mar, naquela região, ignorava os ciclos lunares e tinha marés baixas e altas sem nenhuma explicação. Com o tempo, mesmo os pescadores mais corajosos deixaram de pescar por lá, naquela praia que ganhou fama de mal-assombrada. Eis que um dia, um homem veio pescar. Já fazia tempo que era um solitário, afastado de sua colônia. Por isso, não sabia que ninguém trabalhava por ali. Ele olhou para a praia deserta, e gostou da solidão. Arrumou seu barco, sua vara, seu anzol. E, não era dia claro ainda, jogou-se ao mar em sua embarcação. Como sempre fazia, sentiu primeiro o mar levá-lo, balançá-lo de um lado para o outro. Gostava de fazer isso, mas pela primeira vez em muito tempo, sentiu medo do mar. As pessoas solitárias não sentem medo, porque, na verdade, se esquecem de como é sentir e acostumam-se ao silêncio de suas almas, dormentes. E aquela emoção quase o acordou. Mas logo passou, e ele começou a remar. O anzol desceu às águas, e enroscou em algo. Ele puxou, puxou, e não conseguiu trazer nada. Pensou que finalmente pegara um peixe grande; pelo jeito, enorme. E, enquanto se esforçava, e se levantava, e colocava cada vez mais força nos puxões, começou a pensar no peixe grande, em quantas pessoas ele alimentaria, e quanto tempo sua carne duraria, e ficou feliz porque, por muito tempo, não teria que voltar a pescar. E assim ele puxava mais e mais. No fundo do mar, a Mulher-esqueleto sentiu algo se prendendo a suas costelas, e de repente, a fez se mexer com força. O mar começou a ficar movimentado, e ela começou a lutar para se soltar do anzol do pescador. Ele puxava, e ela, que tinha se acostumado à sonolência e ao fundo do mar, já não queria mais sair do lugar frio e úmido. E quanto mais ela lutava para se soltar, mais se enroscava na linha, e mais e mais. O mar começou a ficar agitado, e ela, apesar de tentar com todas as suas forças resistir, foi arrastada definitivamente para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas, presos no anzol do pescador. O pescador jogou sua linha toda, e a amarrou no barco, puxando-a e arrumando os remos para voltar. Ele não viu quando aquele crânio cheio de limbo e crustáceos, brilhou por cima da água, e não viu aquele esqueleto inteiro preso na rede que se formou de sua linha. Quando ele voltou para puxar sua pesca para dentro do barco, olhou para aquela figura horrenda e gritou, o grito mais alto que se ouviu na Terra. Sentiu seu coração disparar, suas pernas falharem e suas mãos tremerem incontrolavelmente. Correu para a frente do barco e começou a remar desesperado para a praia, sem perceber que era sua própria linha que segurava aquele conjunto de ossos sujo e de expressão terrível. Conforme ele remava, o esqueleto ficou em pé, e foi junto com ele. Quando ele olhou para trás, teve ainda mais medo daquela figura que parecia persegui-lo. Ele desviava o caiaque, mas ela o perseguia; a força do vento fazia com que ela parecesse respirar em sua nuca, e o balanço ríspido do barco agitava aqueles ossos, como se quisessem agarrá-lo. E o pescador nunca tinha sentido algo tão forte na vida quanto o pavor daquela hora.Finalmente o barco encalhou na praia. Ele, ainda gritando, de um pulo saiu do caiaque e correu, sem perceber que sua linha, enroscada em sua calça, carregava junto a Mulher-Esqueleto em sua forma cadavérica para onde ele fosse. E assim ele correu por muito tempo, enquanto teve forças - pelas pedras da praia, pelos vales gelados, pela estrada. Conforme ele passava entre as pedras, quebrava parte dos ossos dela, mas ela continuava atrás dele, firme. Ela não se distanciou, continuou seguindo-o, e seguindo-o, amarrada ao calcanhar dele. No meio da corrida, ela agarrou um pedaço de peixe, e começou a comê-lo. Fazia muito tempo que não comia, tanto tempo que nem lembrava como era. E aquela sensação de saciedade a fez ver como a fome era ruim. Olhou para o brilho do sol na neve, e pensou que, tão acostumada ao frio do mar, esqueceu como era bom o calor daqueles raios. No limite de suas forças, o homem chegou ao seu iglu. O homem, que há muitos metros já não olhava para trás, engatinhou para dentro, e ficou lá, no escuro, aquietando-se. Pensou que lá, finalmente, estava em segurança, longe daquele ser horrendo que o perseguiu daquela maneira. Pensou estar escondido na intimidade de seu lar. Seu coração, agitado pelo exercício forçado e pelo medo, parecia um enorme tambor dentro do peito. Mas ele agradeceu por estar em casa, novamente só, e em segurança. Foi quando ele acendeu sua lamparina e notou ali, a seu lado, aquilo. Ela, o aglomerado de ossos, fazendo um monte em um chão de neve, com o pé por cima da cabeça, a clavícula enrolada no joelho, o calcanhar passando por dentro da costela - uma forma medonha e indefinida - e por entre os ossos a linha, que ainda estava enroscada no pé do pescador. Ele pensou em fugir novamente, mas ao olhar para a Mulher-Esqueleto, agora toda quebrada e maltratada, sob a luz suave da lamparina... Sentiu uma pena, um carinho intenso. Talvez fosse o cansaço, a solidão ou a curiosidade - ele não sabia dizer. Com a respiração suave, e um olhar terno, como de uma mãe para um filho, ele entoou uma canção delicada, e começou o longo e extenso trabalho de desembaraçar aqueles ossos. Osso por osso, dos pés ao calcanhar, do calcanhar ao joelho, do joelho a bacia, e assim ia cantando e acariciando. Ele trabalhou a noite toda, até que viu o esqueleto completo, limpo e recomposto. Cobriu-a com peles, para que se aquecesse. Com alguns fios de seu próprio cabelo, fez uma fogueira. Calmamente limpou sua vara e enrolou sua linha de seda, enquanto ela observava tudo sem ter coragem de dizer palavra. Tinha medo que ele se assustasse novamente e a jogasse no penhasco, ao mar gelado, quebrando totalmente seus ossos, pois uma nova queda a faria virar pó. Continuou calada.O homem, cansado, enfiou-se debaixo das peles, e dormiu até sonhar. Uma lágrima escorreu de seus olhos; não se sabe se o sonho era de anseio ou de tristeza, mas o fato é que havia uma lágrima. A Mulher-Esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e foi então que ela sentiu uma sede quase infinita. Ela foi se arrastando, gemendo e retinindo, até chegar a ele, e bebeu aquela lágrima, a lágrima que foi como um rio inteiro, um rio caldaloso que ela bebeu, bebeu e bebeu, até que sua sede de muitos anos fosse saciada. Foi quando ela teve força de estender sua mão para dentro do homem e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a tocar aquele coração, e tocando-o, começou a batucá-lo. E batucando os dois lados do coração, ela sorriu - como era bom sorrir! - e cantou, cantou com a voz alta e firme, uma canção alegre, uma canção de vida. E começou a cantar, "carne, carne, carne!", e quanto mais ela cantava, pedaço a pedaço, seu corpo revestia-se de carne. Ela cantou para ter cabelo, para ter olhos, para ter mãos boas e gordas, para ter uma divisão entre as pernas, para ter seios fartos que dessem calor, para ter lábios macios, e todas as coisas que as mulheres precisam e gostam de ter. Quando ela se viu novamente uma mulher inteira, e linda, ela cantou para despir o homem, e deitou-se ao seu lado, pele a pele, o abraço de um no abraço do outro. Foi quando ela devolveu ao peito dele o grande tambor, e ele continuava dormindo. E ela dormiu naquele calor. Eles acordaram, abraçados, ainda envolvidos na nuvem naquela longa, terna e revolucionária noite. Souberam então que estavam juntos, agora de um outro jeito, um jeito bom e duradouro. E sorriram, sorriram como nunca sorriram, um para o outro, e para si mesmos. Há quem diga que a mulher e o pescador foram morar perto da praia, e que eram alimentados pelas criaturas que ela conheceu quando era só um esqueleto no fundo do mar. E dizem que estão vivos, e felizes, até hoje. E há quem acredite que viverão eternamente. E foi assim que aconteceu.

SOBRE DIREITOS AUTORAIS

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Namastê























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